{"id":292,"date":"2012-11-21T12:52:49","date_gmt":"2012-11-21T15:52:49","guid":{"rendered":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/?p=292"},"modified":"2012-11-21T12:53:56","modified_gmt":"2012-11-21T15:53:56","slug":"a-primeira-mordida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2012\/11\/a-primeira-mordida.html","title":{"rendered":"a primeira mordida"},"content":{"rendered":"<p>o otto come\u00e7ou a frequentar a escola em meados de setembro deste ano e todo um novo mundo de possibilidades e coisas inesperadas se abriu pra n\u00f3s. desde a <a href=\"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2012\/09\/o-1o-dia-na-escola.html\" target=\"_blank\">escolha da escola<\/a> at\u00e9 a socializa\u00e7\u00e3o com outros pais, passando pelo contato com as professoras dele e a inicia\u00e7\u00e3o ao mundo das outras-crian\u00e7as-sem-educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p>abre par\u00eantese: sim, <em>as outras<\/em>, porque as nossas crian\u00e7as s\u00e3o sempre educadas e maravilhosas, certo? \ud83d\ude42<\/p>\n<p>ironia \u00e0 parte, o otto \u00e9 um menino muito tranquilo e educado no geral. n\u00e3o sei at\u00e9 que ponto\u00a0o bom comportamento \u00e9 consequ\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o que tentamos dar pra ele ou simplesmente parte da personalidade, mas fato \u00e9 que ele n\u00e3o d\u00e1 trabalho e \u00e9 muito tranquilo. n\u00e3o \u00e9 daquelas crian\u00e7as que gritam, correm, pulam em cima das coisas e pessoas, desobedece os pais, bate em outras crian\u00e7as. ok, com alguma frequ\u00eancia ele TENTA fazer essas coisas, mas n\u00f3s sempre corrigimos na hora e o problema acaba a\u00ed.<\/p>\n<p>como toda crian\u00e7a, o otto logicamente teve epis\u00f3dios de grit\u00e3o, chiliquento, mordedor, jogou coisas no ch\u00e3o, e ele enfrenta a gente sempre, periodicamente (que bom!), mas todos os comportamentos que n\u00e3o achamos &#8220;socialmente aceit\u00e1veis&#8221;, corrigimos na hora.<\/p>\n<p>consideramos inaceit\u00e1vel:\u00a0morder, bater, gritar (qualquer contexto. gritar \u00e9 irritante), jogar coisas, sair correndo, subir em m\u00f3veis, pegar objetos que s\u00e3o &#8220;proibidos&#8221;, n\u00e3o atender quando chamamos, n\u00e3o parar quando mandamos parar. certamente a lista vai aumentar quando ele crescer, mas por enquanto \u00e9 isso a\u00ed.<\/p>\n<p>e como fazemos? simplesmente n\u00e3o aceitamos que ele fa\u00e7a nenhuma dessas coisas sem consequ\u00eancias. quando ele faz, falamos com ele num tom bem bravo (mas sem gritar, que assusta e a\u00ed perde o foco), olho no olho, e explicamos que n\u00e3o pode, que n\u00e3o queremos que ele fa\u00e7a X ou Y. quando a quest\u00e3o \u00e9 f\u00edsica (bater, subir em m\u00f3veis, pegar coisas que n\u00e3o pode, etc.), al\u00e9m de explicar tamb\u00e9m seguramos\/tiramos dele. sempre damos a op\u00e7\u00e3o dele largar ou parar sozinho, antes de segurar\/tirar. a maior parte das vezes funciona, e ele prefere &#8220;fazer a coisa certa&#8221; por conta dele, ao inv\u00e9s de se submeter fisicamente.<\/p>\n<p>sim, algumas vezes ele chora quando damos bronca nele. chora porque tem medo dos pais falando mais &#8220;bravos&#8221; com ele (e ainda estamos dosando a forma de falar, porque mesmo sem gritar, quando mudamos o tom de voz ele fica com medo), e chora simplesmente porque est\u00e1 frustrado por n\u00e3o conseguir fazer o que quer, do jeito que quer. mas muitas vezes ele j\u00e1 se manifesta verbalmente, e diz que est\u00e1 bravo ou triste, diz que queria fazer as coisas de outro jeito.<\/p>\n<p>oras, \u00e9 direito dele querer algo diferente do que consideramos aceit\u00e1vel, e procuramos respeit\u00e1-lo e acolh\u00ea-lo na frustra\u00e7\u00e3o e tristeza, mas essas coisas continuam sendo n\u00e3o-n\u00e3o. e ponto final.<\/p>\n<p>esse processo \u00e9 chato, desgastante, cansativo. e d\u00f3i em n\u00f3s tamb\u00e9m, porque nada \u00e9 mais inc\u00f4modo do que seu filho triste, bravo, chorando. minto, tem uma coisa mais inc\u00f4moda: pensar que seu filho pode se tornar um sem no\u00e7\u00e3o, mal-educado, que outras pessoas podem n\u00e3o gostar dele por esses motivos. e para que ele se torne uma pessoa que respeita regras de conv\u00edvio minimamente que ensinamos que h\u00e1 coisas que n\u00e3o se pode fazer, pois machucam e\/ou incomodam as outras pessoas.<\/p>\n<p>se no futuro ele deliberadamente quiser ser inconveniente ou agressivo, saber\u00e1 que h\u00e1 consequ\u00eancias, e ter\u00e1 de lidar com elas. hoje, o referencial dele somos n\u00f3s, e n\u00f3s n\u00e3o toleramos gritaria, correria, birra e agress\u00e3o.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p>fechei o par\u00eantese &#8212; pois quando confrontados com o maravilhoso mundo da escola,\u00a0o mundo real, descobrimos que nem todos os pais s\u00e3o como n\u00f3s. mais especificamente, descobrimos que h\u00e1 pais que acham que impor limites aos seus filhos \u00e9 um problema, e atribuem todo tipo de comportamento inadequado e inconveniente \u00e0 idade, fase, g\u00eanero (sim, senhores e senhoras), signo. o motivo nunca \u00e9 &#8220;n\u00f3s n\u00e3o impomos limites de forma clara&#8221;, l\u00f3gico.<\/p>\n<p>na semana em que o otto entrou na escola, entrou tamb\u00e9m um menino que agredia as demais crian\u00e7as. ele bate, morde, puxa cabelo. e o otto n\u00e3o ficou impune: nos primeiros dias levou tapas, e h\u00e1 poucos dias foi mordido 2 vezes (no bra\u00e7o numa semana, na perna na outra).<\/p>\n<p>o fer, que \u00e9 aquele tipo de paiz\u00e3o superprotetor assumido, ficou uma fera na 1a ocorr\u00eancia, j\u00e1 queria matar algu\u00e9m. foi explicado que o menino e a fam\u00edlia &#8220;est\u00e3o passando por uma fase complicada&#8230;&#8221; e que eles estariam mais atentos, e corrigindo o menino durante o per\u00edodo de aula, com uma professora adicional. a corre\u00e7\u00e3o significa segurar as m\u00e3os\/o menino e dizer que a m\u00e3o n\u00e3o pode bater, que a boca n\u00e3o pode morder, lavar a m\u00e3o com lavanda (&#8230;), toda uma abordagem bem suave. e estou de acordo com a abordagem da escola ser assim, especialmente (negrito, maestro zezinho!) porque <strong>a responsabilidade de educar e corrigir a crian\u00e7a \u00e9 dos pais<\/strong>, e n\u00e3o da escola.<\/p>\n<p>mas a escola precisa, sim, garantir que meu filho (e as demais crian\u00e7as) n\u00e3o ser\u00e3o atacados pelo garoto-pitbull. seja l\u00e1 qual for a fase (da crian\u00e7a ou da lua) que causa o problema, \u00e9 preciso proteger as demais crian\u00e7as de agress\u00f5es, caramba. e \u00e9 isso que exigimos, e fomos ouvidos, felizmente.<\/p>\n<p>o que me preocupa \u00e9 o excesso de explica\u00e7\u00f5es e justificativas para comportamentos inaceit\u00e1veis (ponto final. seja l\u00e1 qual for a causa, a a\u00e7\u00e3o deve ser reprimida e corrigida), como se dev\u00eassemos aliviar ou permitir tais comportamentos porque existe uma causa. ora, trabalhem ent\u00e3o nas causas e enquanto isso (mais um negrito, por favor?) <strong>ensinem a crian\u00e7a que n\u00e3o pode, n\u00e3o pode, n\u00e3o pode<\/strong>.<\/p>\n<p>alguns amigos bem-intencionados sugeriram ensinar ao otto ficar longe do menino, impedir ou at\u00e9 revidar a agress\u00e3o. eu certamente vou ensinar o otto a se defender, acho essencial, por\u00e9m tamb\u00e9m acho que \u00e9 muito cedo. ele simplesmente n\u00e3o entende agress\u00e3o, e menos ainda a inten\u00e7\u00e3o de agress\u00e3o. ele precisa estar um pouco maior pra que possamos explicar o que significa &#8220;se defender&#8221; em oposi\u00e7\u00e3o a &#8220;atacar&#8221;. al\u00e9m disso, a agress\u00e3o sempre acontece quando n\u00e3o estamos perto, n\u00e3o temos como usar a situa\u00e7\u00e3o para ensinar. como vou, em casa, horas depois do ocorrido, apelar pra mem\u00f3ria dele e ensinar a partir de algo que aconteceu muitas horas atr\u00e1s? &#8220;olha, otto, lembra que fulaninho te mordeu? ent\u00e3o, faz assim: na pr\u00f3xima vez que fulaninho chegar perto de voc\u00ea, saia correndo!&#8221;. s\u00e9rio que algu\u00e9m acha que isso funciona?<\/p>\n<p>percebi tamb\u00e9m que os bem-intencionados que arranjaram desculpas pro menino morder, e disseram que &#8220;crian\u00e7a \u00e9 assim mesmo&#8221;, ou que \u00e9 &#8220;da fase&#8221; s\u00e3o aqueles cujos filhos\/sobrinhos\/X s\u00e3o os agressores. \u00e9 o c\u00famulo da racionaliza\u00e7\u00e3o. vamos falar \u00e0s claras: morder e agredir N\u00c3O PODE. n\u00e3o importa sua idade, seu signo, nem a fase da lua. n\u00e3o pode, e \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o dos pais ensinar que n\u00e3o pode e impedir que aconte\u00e7a (exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o OK; agress\u00e3o como parte do comportamento normal, n\u00e3o pode), usando seja l\u00e1 qual m\u00e9todo quiser, desde que funcione. d\u00ea banho de pipoca, coloque no castigo, fale at\u00e9 a orelha da crian\u00e7a cair (nosso caso), vire-se. seu filho, seu problema.<\/p>\n<p>al\u00e9m disso, parece que ensinar o otto a se defender ou se afastar \u00e9 OK; ensinar o menino a n\u00e3o morder n\u00e3o d\u00e1, porque &#8220;\u00e9 da fase&#8221;. olha&#8230; me poupem.<\/p>\n<p>sei que aprendi muito com esse epis\u00f3dio. sobre a natureza humana, sobre educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, sobre o papel da escola e sobre mim mesma. porque sou do tipo de m\u00e3e que deixa a crian\u00e7a chafurdar na lama, e creio mesmo que brigas de crian\u00e7as devem ser resolvidas por elas mesmas. morder, bater, cair, fazem parte da inf\u00e2ncia. mas quando \u00e9 a mesma crian\u00e7a que continuamente agride o <em>meu beb\u00ea<\/em>, que \u00e9 t\u00e3o bonzinho, vou dizer: d\u00e1 vontade mesmo \u00e9 de socar. o pitbull, os pais do pitbull e as professoras que n\u00e3o ficaram atentas.<\/p>\n<p>mas passa, e estou contente com o desenrolar da hist\u00f3ria. pr\u00f3ximo passo: ensinar o otto a usar um taco de baseball*.<\/p>\n<p>(*) JUST KIDDING \ud83d\ude00<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>o otto come\u00e7ou a frequentar a escola em meados de setembro deste ano e todo um novo mundo de possibilidades e coisas inesperadas se abriu pra n\u00f3s. desde a escolha da escola at\u00e9 a socializa\u00e7\u00e3o com outros pais, passando pelo contato com as professoras dele e a inicia\u00e7\u00e3o ao mundo das outras-crian\u00e7as-sem-educa\u00e7\u00e3o. ** abre par\u00eantese: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,98],"tags":[],"class_list":["post-292","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao","category-escola"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/292\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}