{"id":340,"date":"2013-03-20T17:00:06","date_gmt":"2013-03-20T20:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/?p=340"},"modified":"2013-03-20T17:08:15","modified_gmt":"2013-03-20T20:08:15","slug":"e-o-papai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2013\/03\/e-o-papai.html","title":{"rendered":"e o papai?"},"content":{"rendered":"<p>li essa semana uma mat\u00e9ria falando sobre licen\u00e7a paternidade, que hoje \u00e9 de apenas 5 dias, e do papel do pai na cria\u00e7\u00e3o dos filhos. e me dei conta que basicamente nunca escrevi aqui sobre como lidamos com isso, eu e <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/ferbalestra\" target=\"_blank\">fer<\/a>, os pais do otto. mas tem motivo: simplesmente n\u00e3o existe diferen\u00e7a entre eu-m\u00e3e e ele-pai na cria\u00e7\u00e3o do otto, e vou explicar um pouco sobre isso.<\/p>\n<p>pra come\u00e7ar, a decis\u00e3o de ter um filho foi consenso entre n\u00f3s, depois de 7 anos de casados (sem querer ter filhos, inclusive). eu brinco que optamos por engravidar como &#8220;experi\u00eancia antropol\u00f3gica&#8221;, e no fundo \u00e9 isso mesmo, n\u00e3o \u00e9 brincadeira n\u00e3o. quer\u00edamos passar por esta experi\u00eancia, aprender com ela. tivemos muitos medos, mas decidimos encarar. e pra quem tem os mesmos questionamentos, digo que ter filhos n\u00e3o \u00e9 primordial para a vida e\/ou felicidade de ningu\u00e9m, mas \u00e9 uma experi\u00eancia \u00fanica e incr\u00edvel. como pular de paraquedas, por exemplo, coisa que jamais farei \ud83d\ude00<\/p>\n<p>somente eu carreguei o otto na barriga, mas o fer esteve presente em todos os momentos, procurou informa\u00e7\u00e3o junto comigo (pouca, n\u00e3o fomos do tipo que l\u00ea mil livros), conversamos sobre a escolha do nome, sobre como seria o parto, fizemos o pr\u00e9-natal juntos mesmo. nunca senti que a gravidez foi um processo &#8220;meu&#8221;, apesar de toda parte fisiol\u00f3gica que s\u00f3 estando dentro da pr\u00f3pria pele para acompanhar. ele foi realmente meu companheiro nesses 9 meses, e no <a href=\"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2010\/10\/finalmente-o-parto.html\" target=\"_blank\">parto-show-de-horror<\/a> ele estava l\u00e1 comigo, bem como naqueles <a href=\"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2010\/10\/todo-sentimento.html\" target=\"_blank\">8 dias assustadores de UTI<\/a>.<\/p>\n<p>o fer \u00e9 freela, e se planejou bem antes do nascimento para tirar sua licen\u00e7a-paternidade &#8212; ele ficou sem trabalhar por 6 meses ap\u00f3s o nascimento do otto, junto comigo, <em>full time<\/em> em casa (acho que ele pegou um ou outro trabalho pequeno, em casa, se n\u00e3o me engano). e quando <a href=\"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2011\/03\/da-volta-ao-trabalho-e-outras-coisas.html\" target=\"_blank\">eu voltei a trabalhar<\/a> (o otto estava com 6 meses e meio, e j\u00e1 comendo), ele ficou a maior parte do tempo em casa nos pr\u00f3ximos meses tamb\u00e9m, s\u00f3 pegando projetos que n\u00e3o demandassem ficar o dia todo fora.<\/p>\n<p>nos primeiros meses, quando o otto mamava de 2 em 2h (ou menos, j\u00e1 que eu dava o peito quando ele queria), 24\/7, amamentar era a tarefa mais desgastante e dif\u00edcil, e obviamente s\u00f3 eu podia dar o peito. mas o processo de amamentar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 peito &#8212; inclui pegar o beb\u00ea, trocar fralda, frequentemente trocar a roupa, mamar, arrotar e (com sorte) dormir. pois eu s\u00f3 fazia a parte do peito, o fer sempre fez todo o resto. durante a noite, era ele que ficava na vig\u00edlia do belzebu-menino-que-n\u00e3o-dormia, enquanto eu descansava entre mamadas.<\/p>\n<p>algumas coisas o fer n\u00e3o gosta de fazer &#8212; dar comida, por exemplo, que faz uma meleca danada. \u00e9 da personalidade dele, que n\u00e3o gosta de meleca e sujeira de comida, fica aflito. mas ainda assim ele d\u00e1, quando precisa. nosso acordo (e conversamos bastante sobre isso, n\u00e3o \u00e9 &#8220;natural&#8221;) \u00e9 de tentar dividir as tarefas de forma que cada um fique com a parte que goste mais ou que desgoste menos. e as coisas que ningu\u00e9m gosta (trocar fralda, por exemplo) a gente alterna, pra n\u00e3o encher o saco de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o teve stress, em especial nos primeiros meses, quando a gente ainda n\u00e3o sabia como lidar com a pessoa nova da casa. brigamos, discutimos, mas chegamos a um acordo, e seguimos. e vai melhorando, depois dos primeiros meses, porque a gente aprende sobre a crian\u00e7a e sobre a nova rotina, t\u00e3o diferente de antes-do-beb\u00ea. essa mudan\u00e7a \u00e9 especialmente complicada pra quem estava casado h\u00e1 tanto tempo, t\u00e3o sem rotina e sem compromisso. muda da \u00e1gua para o vinho! mas com maturidade e especialmente boa vontade das 2 partes, as coisas se ajeitam.<\/p>\n<p>mas \u00e9 importante notar nessa minha hist\u00f3ria um fator cr\u00edtico: nunca adotamos a postura de que &#8220;papai est\u00e1 ajudando a cuidar da crian\u00e7a&#8221;. papai \u00e9 respons\u00e1vel por esta crian\u00e7a tanto quanto a mam\u00e3e! tanto quanto, exatamente na mesma medida, nem mais e nem menos. \u00e9 fato que a crian\u00e7a demanda mais da m\u00e3e, especialmente nos primeiros meses. a ponto do pai se sentir meio &#8220;in\u00fatil&#8221; &#8212; exemplo: no colo do pai a crian\u00e7a chora, vai pro colo da m\u00e3e e para imediatamente. existe uma liga\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal entre m\u00e3e e beb\u00ea que \u00e9 real, n\u00e3o d\u00e1 pra negar. mas isso n\u00e3o significa que a gente n\u00e3o deva deixar o beb\u00ea com o pai pra ir tomar banho, comer, dormir ou fazer a unha. mesmo que o beb\u00ea preferisse estar com a m\u00e3e. n\u00f3s inclusive fizemos quest\u00e3o de deixar o otto com a bab\u00e1, tia, av\u00f3s o m\u00e1ximo poss\u00edvel \u00a0entre as mamadas, n\u00e3o s\u00f3 pra termos uma folga (t\u00e3o importante!) mas tamb\u00e9m pra que ele acostumasse com outras pessoas e a gente deixasse de ser neur\u00f3tico (se voc\u00ea n\u00e3o tem filhos ou os seus n\u00e3o ficaram na UTI ao nascer, vai ser dif\u00edcil entender o quanto a gente fica neur\u00f3tico e superprotetor).<\/p>\n<p>papai n\u00e3o est\u00e1 &#8220;ajudando&#8221;, ele est\u00e1 fazendo o que precisa ser feito, quando precisa ser feito. o fato dele estar comigo em casa ajudou demais, e acho que todos os pais deviam ter a oportunidade de passar pelo menos os 6 primeiros meses dos seus filhos cuidando deles, caso assim desejem. se pudesse ser mais acho que seria melhor, porque o primeiro ano \u00e9 muito intenso e tem quest\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o do beb\u00ea que v\u00e3o acompanh\u00e1-lo pelos pr\u00f3ximos anos, como os h\u00e1bitos alimentares e de higiene, por exemplo. a menos que voc\u00ea tenha a sorte que eu tenho, de ter uma bab\u00e1 que \u00e9 praticamente a minha m\u00e3e, vai ser complicado educar seu filho do seu jeito.<\/p>\n<p>gra\u00e7as ao planejamento do fer nos primeiros meses, sua op\u00e7\u00e3o de estar mais pr\u00f3ximo do otto (ele trabalha em casa sempre que pode, e quando trabalha fora costuma sair depois do almo\u00e7o somente) tem funcionado muito bem, podemos dizer que somos um casal que educa e cuida do nosso filho de forma 100% compartilhada. entre a bab\u00e1, escola, ele e eu, conseguimos cuidar do otto num esquema \u00f3timo, cada um oferecendo o que tem de melhor para a educa\u00e7\u00e3o e crescimento emocional e afetivo.<\/p>\n<p>de manh\u00e3, o fer prepara o otto para ir \u00e0 escola, faz o caf\u00e9 da manh\u00e3 e garante que o otto come enquanto eu tomo banho, me preparo e como tamb\u00e9m. eu levo ele pra escola, onde ele brinca e interage com outras crian\u00e7as e os professores, e almo\u00e7a (sozinho, com as outras crian\u00e7as). o fer vai busc\u00e1-lo, e chegando em casa a maria d\u00e1 banho, troca de roupa e faz dormir. no meio da tarde ela d\u00e1 um lanche, leva ele pra passear no parque, andar de bicicleta, comer fruta das \u00e1rvores, brincar com outras crian\u00e7as e com os bichos. na volta, j\u00e1 d\u00e1 o jantar \u00e0s 17:30h, que \u00e9 quando eu chego e a\u00ed \u00e9 minha vez de brincar, conversar, \u00e0s vezes sa\u00edmos os 3 para andar de bicicleta, etc. quando ele tem fome eu dou banho, o fer coloca pijama, eu escovo os dentes, contamos hist\u00f3rias os 3 juntos, e ele dorme comigo (ultimamente temos dividido a hora de dormir tamb\u00e9m entre eu e fer, pra ele n\u00e3o acostumar demais a dormir s\u00f3 comigo). nos fins de semana eu fico com o otto no s\u00e1bado de manh\u00e3 pro fer poder dormir at\u00e9 mais tarde, no resto do dia variamos. no domingo, o fer fica com ele de manh\u00e3 pra que eu possa dormir at\u00e9 mais tarde, e depois fazemos algo todos juntos. a hora da comida geralmente \u00e9 minha (eu que preparo e dou), mas agora que o otto faz menos meleca o papai consegue ajudar sem ficar morrendo de desgosto \ud83d\ude42<\/p>\n<p>nossa rotina \u00e9 simples, mas funciona bem exatamente porque n\u00e3o tem tarefa-da-mam\u00e3e e tarefa-do-papai. fazemos tudo juntos, tentamos dar uma folga um pro outro e temos ajuda (escola e bab\u00e1). sa\u00edmos juntos s\u00f3 os 2 de vez em quando (\u00e9 raro, porque ainda estamos na fase que queremos fazer tudo com o otto :)), e procuramos conversar quando alguma coisa n\u00e3o parece legal, ou um de n\u00f3s est\u00e1 se sentindo sobrecarregado. ajustes normais em relacionamentos de adultos. nem tudo s\u00e3o flores, mas encaramos os problemas como parte do processo, sempre lembrando um ao outro que estamos nisso juntos.<\/p>\n<p>dito isso tudo, acho que n\u00e3o devia haver licen\u00e7a maternidade e nem licen\u00e7a paternidade, mas &#8220;licen\u00e7a fam\u00edlia&#8221;. um per\u00edodo para que a fam\u00edlia se adapte \u00e0 nova realidade, e que os pais juntos pudessem decidir como usar esse tempo. ou, como existe em alguns pa\u00edses, a licen\u00e7a vale para um dos pais, eles decidem qual vai ficar em casa com o beb\u00ea (\u00e9 natural que seja a m\u00e3e, por causa da amamenta\u00e7\u00e3o, mas depois do primeiro ano talvez o casal queira mudar, e a m\u00e3e volta a trabalhar enquanto o pai fica com o beb\u00ea, sei l\u00e1).<\/p>\n<p>e aproveito para agradecer ao fer por ter sido sempre um companheiro nessa jornada t\u00e3o intensa, maluca e divertida. apesar de todas as dificuldades, estamos firmes no intento de estar juntos e criar esse menino t\u00e3o legal que colocamos no mundo, mostrar pra ele que um mundo mais igual \u00e9 poss\u00edvel &#8212; acho ele vai estranhar quando descobrir que h\u00e1 um mundo t\u00e3o desigual l\u00e1 fora, tomando como exemplo o universo dele&#8230;<\/p>\n<p>n\u00f3s como mulheres n\u00e3o devemos nos contentar com homens que &#8220;nos ajudam&#8221;. eles devem ser parte do processo todo, sempre. n\u00e3o \u00e9 o g\u00eanero que deve definir o que \/ quanto fazer, mas o acordo entre os dois, a disponibilidade, a possibilidade de cada um. com respeito, com comprometimento.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p><strong>fer<\/strong>, voc\u00ea \u00e9 um homem incr\u00edvel, que respeita as mulheres como iguais e vive essa igualdade de forma natural. em 10 anos jamais ouvi da sua boca um s\u00f3 coment\u00e1rio machista, e amo voc\u00ea ainda mais por isso. seu comportamento \u00e9 sempre respeitoso, consistente, afetuoso. voc\u00ea mostra ao nosso filho que ser homem \u00e9 tamb\u00e9m ser sens\u00edvel, que isso n\u00e3o \u00e9 atributo feminino. nosso filho pode chorar, vestir rosa, brincar com os sapatos na mam\u00e3e, sem nunca ser tolhido. tenho certeza que nosso filho ser\u00e1 um homem feminista, do qual teremos sempre muito orgulho, gra\u00e7as ao nosso exemplo, gra\u00e7as \u00e0 forma como vivemos dentro da nossa casa. n\u00e3o tenho nenhum medo de que meu filho se afaste de mim por ser homem e eu ser mulher. por mais que ele se identifique mais com voc\u00ea em alguns momentos por compartilhar o g\u00eanero, seu respeito e amor por mim e pelas mulheres ao nosso redor ser\u00e3o sempre a refer\u00eancia dele. obrigada por embarcar comigo nessa de forma t\u00e3o entregue e dedicada. te amo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>li essa semana uma mat\u00e9ria falando sobre licen\u00e7a paternidade, que hoje \u00e9 de apenas 5 dias, e do papel do pai na cria\u00e7\u00e3o dos filhos. e me dei conta que basicamente nunca escrevi aqui sobre como lidamos com isso, eu e fer, os pais do otto. mas tem motivo: simplesmente n\u00e3o existe diferen\u00e7a entre eu-m\u00e3e 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