{"id":394,"date":"2013-10-04T10:10:09","date_gmt":"2013-10-04T13:10:09","guid":{"rendered":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/?p=394"},"modified":"2013-10-04T10:10:09","modified_gmt":"2013-10-04T13:10:09","slug":"o-maior-de-todos-os-medos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2013\/10\/o-maior-de-todos-os-medos.html","title":{"rendered":"o maior de todos os medos"},"content":{"rendered":"<p>fui pesquisar no blog se j\u00e1 tinha falado de medo antes, pra n\u00e3o me repetir demais, e descobri que <a href=\"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/?s=medo&amp;submit=Search\" target=\"_blank\">a palavra apareceu bastante<\/a>. n\u00e3o me espantei, porque uma das coisas que descobri \u00e9 que depois de ser m\u00e3e\/pai o medo toma uma propor\u00e7\u00e3o completamente diferente e muito maior.<\/p>\n<p>o medo \u00e9 <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Fear\" target=\"_blank\">definido<\/a> como uma emo\u00e7\u00e3o causada pela percep\u00e7\u00e3o de perigo ou amea\u00e7a, um mecanismo de sobreviv\u00eancia b\u00e1sico. a menos que voc\u00ea venha com defeito de f\u00e1brica, sente medo, a emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o devia ser novidade pra ningu\u00e9m. mas eu n\u00e3o sabia o quanto o medo podia ser t\u00e3o maior, e apavorante, quando se trata dos nossos filhos.<\/p>\n<p>o medo de perder um filho \u00e9 mais forte que o medo de perder a pr\u00f3pria vida. s\u00e9rio: a ideia de morrer \u00e9 muito melhor que a de perder um filho. se houvesse escolha, estou certa que os pais escolheriam morrer no lugar dos seus filhos.<\/p>\n<p>eu n\u00e3o sentia esse medo antes do otto sair da barriga, quando ele ainda era feto. mas depois que ele nasceu, e vi seu rosto, pele, cabelos bagun\u00e7ados, ouvi sua voz e senti seu cheiro, um &#8220;clic&#8221; aconteceu. e n\u00e3o \u00e9 amor (pra mim, <a href=\"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2010\/10\/o-tal-amor-incondicional.html\" target=\"_blank\">o amor veio gradualmente<\/a>), \u00e9 algo como uma pr\u00e9-programa\u00e7\u00e3o, \u00e9 n\u00e3o-racional. no momento em que aquele ser existe e respira, ele \u00e9 sua responsabilidade, e voc\u00ea mover\u00e1 montanhas pra que ele sobreviva. est\u00e1 no nosso c\u00f3digo gen\u00e9tico, na programa\u00e7\u00e3o do nosso c\u00e9rebro, e voc\u00ea agir\u00e1 de forma tal que a prioridade n\u00famero 1 da sua vida ser\u00e1 aquele beb\u00ea. mesmo com toda ajuda do mundo, \u00e9 <em>voc\u00ea<\/em> o respons\u00e1vel. aquele beb\u00ea precisa sobreviver.<\/p>\n<p>a sele\u00e7\u00e3o natural \u00e9 um poderoso instrumento de forma\u00e7\u00e3o de seres perfeitamente adaptados para garantir que seus descendentes sobrevivam, atrav\u00e9s do <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Biological_imperative\" target=\"_blank\">imperativo gen\u00e9tico<\/a>.<\/p>\n<p>antes mesmo de engravidar, quando estava tentando, eu tinha pesadelos recorrentes de que carregava nos bra\u00e7os uma crian\u00e7a imunda, magrinha e chorando, porque eu n\u00e3o conseguia cuidar dela e nem aliment\u00e1-la. eu andava desesperada pelas ruas, pedindo ajuda com a crian\u00e7a nos bra\u00e7os, em v\u00e3o.<\/p>\n<p>e antes de sequer querer engravidar, tive um sonho apavorante que levei pra terapia: eu acordava no meu quarto, na penumbra, e no canto havia uma crian\u00e7a (4, 5 anos) parada, quieta no cantinho, olhando pra mim. n\u00e3o havia nada de mau, feio, sinistro na crian\u00e7a, tipo <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/The_Omen\" target=\"_blank\">demian<\/a> (mas era um menino :)). era s\u00f3 inusitado (no meu quarto, escondida, \u00e0 noite), mas eu sequer chegava a questionar o motivo &#8212; sentia um medo visceral, uma vontade de sair correndo, horr\u00edvel. e ao elaborar mais a imagem, sobre a crian\u00e7a, veio \u00e0 tona meu enorme medo de ser m\u00e3e, de ser respons\u00e1vel por algu\u00e9m, de sentir medo pela seguran\u00e7a e sa\u00fade <em>de outra pessoa que n\u00e3o fosse eu mesma<\/em>.<\/p>\n<p>o contexto de nascimento do otto foi <a href=\"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2010\/10\/finalmente-o-parto.html\" target=\"_blank\">muito especial<\/a>, e apavorante. bem normal que eu tivesse medo dele morrer, ou ter alguma sequela. mas quando ele voltou pra casa, o tempo passou e ficou claro que n\u00e3o havia nenhum problema grave (segundo o pai, s\u00f3 ficaremos 100% tranquilo quando o menino fizer MBA, hahahhaaha!), o medo deveria passar. mas n\u00e3o passou &#8212; eu conferia se ele respirava; qualquer suspiro me fazia sentir ansiedade; quando ele chorava eu chorava junto. tinha vontade de fazer ele voltar pra barriga (no meu controle, claro, dentro do MEU corpo), pra proteger, cuidar, preservar.<\/p>\n<p>o tempo passou e descobri que o medo na verdade n\u00e3o passa. o que acontece \u00e9 que a gente acostuma com ele, e outras coisas pr\u00e1ticas e mais urgentes se sobrep\u00f5em a ele, ficam mais evidentes. o medo fica em <em>background<\/em>, \u00e9 incorporado como parte do dia a dia.<\/p>\n<p>ouvi uma vez uma hist\u00f3ria muito interessante sobre percep\u00e7\u00e3o da realidade, atrav\u00e9s dos sentidos: algu\u00e9m que nunca enxergou na vida, se de repente tivesse a capacidade de vis\u00e3o restaurada de uma s\u00f3 vez, enlouqueceria. a quantidade de informa\u00e7\u00e3o que recebemos \u00e9 imensa, e s\u00f3 conseguimos lidar com o fluxo de informa\u00e7\u00e3o porque desenvolvemos a capacidade de filtro, pouco a pouco, desde rec\u00e9m-nascidos. os beb\u00eas escutam, v\u00eaem e sentem de forma diferente, o sistema neural aprende a captar e decodificar os sinais externos pouco a pouco, \u00e9 um mecanismo de absor\u00e7\u00e3o gradativa, at\u00e9 pra n\u00e3o dar tilt no c\u00e9rebro. aos poucos, aprendemos a focar no que \u00e9 importante (ou nos interessa) e &#8220;desfocamos&#8221; tudo que \u00e9 segundo, terceiro plano. as coisas continuam existindo, mas com menor import\u00e2ncia e impacto, pra que a gente consiga sobreviver num mundo com infinitos est\u00edmulos.<\/p>\n<p>j\u00e1 li tamb\u00e9m que pessoas que t\u00eam algum tipo de disfun\u00e7\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o\/decodifica\u00e7\u00e3o e filtro sofrem muito (alguns autistas, por exemplo), e os beb\u00eas que mais choram e precisam de colo\/conforto nos primeiros meses s\u00e3o justamente os que t\u00eam dificuldade de lidar com o excesso de est\u00edmulo. ou seja &#8212; seus filtros n\u00e3o s\u00e3o formados ainda e eles s\u00e3o sens\u00edveis em excesso.<\/p>\n<p>mas voltando ao assunto: creio que o mesmo se aplica ao medo. ele continua l\u00e1, enorme e sempre presente, mas em segundo plano, porque afinal a vida chama e as coisas pr\u00e1ticas precisam ser feitas.<\/p>\n<p>no \u00faltimo fim de semana o otto se machucou &#8212; andava no nosso terreno, onde construiremos nossa casa, e caiu. eu e o pai est\u00e1vamos atentos, prestando aten\u00e7\u00e3o a onde ele ia, etc., mas n\u00e3o olhamos com tanta aten\u00e7\u00e3o assim, assumindo que no ch\u00e3o havia o que h\u00e1 nos ch\u00e3os: terra, pedras, gramas, insetos. pois que no peda\u00e7o de ch\u00e3o que ele caiu, escondidos entre as gramas e as terras e pedras, havia peda\u00e7os de ferro de funda\u00e7\u00e3o cortados. com pontas. de 10cm. enferrujados, afiados. e ele caiu por cima de 2 destes ferros, quando trope\u00e7ou (havia mais). aquele corpinho fr\u00e1gil, fofinho, delicado de crian\u00e7a de 3 anos caiu em cima de ferros afiados e enferrujados. e tudo o que aconteceu foram 2 arranh\u00f5es &#8212; um pequeno, na barriga (a roupa segurou) e o outro enorme, no bracinho descoberto. rasgou a pele, num machucado bem feio mas que aparentemente n\u00e3o doeu e que pouco sangrou. ele foi bem corajoso, n\u00e3o reclamou do machucado (mas reclamou da assepsia no posto de sa\u00fade, e muito).<\/p>\n<p>a coragem dele, t\u00e3o pequenininho, foi o que me sustentou e impediu de chorar, n\u00e3o quando vi o machucado (apesar de ter morrido de pena), mas quando vi os ferros no ch\u00e3o, e pensei nas 1001 possibilidades de terror daquela queda. ferros no peito, na cabe\u00e7a, no olho, no rosto, no pulm\u00e3o, e etc. etc. etc. e o medo me invadiu como uma cachoeira, voltando de enxurrada ao primeiro plano. pra me lembrar que n\u00e3o, ele n\u00e3o sumiu, ele est\u00e1 sempre l\u00e1, me espreitando, e que vai me pegar cada vez que uma situa\u00e7\u00e3o de risco normal se transforma em desastre potencial ou real.<\/p>\n<p>abracei aquele corpinho fr\u00e1gil, morrendo de medo e culpa (COMO eu n\u00e3o vi os ferros? como eu deixei meu beb\u00ea, minha prole, meu descendente, se arriscar?), e um pouco morta por dentro. fiquei com medo de novo por 1 ou 2 dias, e depois ele voltou ao segundo plano. at\u00e9 a pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p>(o assunto abaixo n\u00e3o \u00e9 diretamente relacionado ao medo, mas acabou aparecendo enquanto escrevia esse texto, resolvi deixar a\u00ed)<\/p>\n<p>algumas pessoas comparam o amor\/preocupa\u00e7\u00e3o com filhos e com animais de estima\u00e7\u00e3o. tenho ambos, e tive animais antes de sequer pensar em ter filhos, e entendo a compara\u00e7\u00e3o. mesmo depois de ter filhos, n\u00e3o me ofendo com a compara\u00e7\u00e3o, pois entendo que as pessoas sem filhos querem de alguma forma mostrar que sentem empatia pela sua situa\u00e7\u00e3o, o trabalho que d\u00e1, etc. n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, isso \u00e9 fato, mas a correla\u00e7\u00e3o ajuda a achar coisas em comum a 2 universos paralelos.<\/p>\n<p>(e ainda acho que ter ferrets d\u00e1 mais trabalho que ter filhos, em alguns aspectos :))<\/p>\n<p>digo que s\u00e3o paralelos porque, de fato, n\u00e3o d\u00e1 pra comparar o amor, preocupa\u00e7\u00e3o (e o medo) que se sente em rela\u00e7\u00e3o a um filho com aquele que se sente em rela\u00e7\u00e3o a um animal de estima\u00e7\u00e3o. perder um animal \u00e9 triste, perdi nada menos que 10 nos \u00faltimos 12 anos. mas nada, nada sequer se parece com o medo de perder seu filho, \u00e9 basicamente o fim do mundo e da vida.<\/p>\n<p>se voc\u00ea tem filhos, eu n\u00e3o preciso explicar isso; se voc\u00ea n\u00e3o tem, n\u00e3o adianta explicar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fui pesquisar no blog se j\u00e1 tinha falado de medo antes, pra n\u00e3o me repetir demais, e descobri que a palavra apareceu bastante. n\u00e3o me espantei, porque uma das coisas que descobri \u00e9 que depois de ser m\u00e3e\/pai o medo toma uma propor\u00e7\u00e3o completamente diferente e muito maior. o medo \u00e9 definido como uma emo\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[136,157],"class_list":["post-394","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-maternidade","tag-acidente","tag-medo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/394","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=394"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/394\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=394"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=394"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=394"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}