{"id":445,"date":"2014-08-26T13:44:03","date_gmt":"2014-08-26T16:44:03","guid":{"rendered":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/?p=445"},"modified":"2014-08-26T13:44:03","modified_gmt":"2014-08-26T16:44:03","slug":"entrevista-sobre-ser-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2014\/08\/entrevista-sobre-ser-mae.html","title":{"rendered":"entrevista sobre ser m\u00e3e"},"content":{"rendered":"<p>uma amiga me indicou para ser entrevistada sobre a experi\u00eancia de ser m\u00e3e, e como n\u00e3o sei se a entrevista vai mesmo ser publicada (sou uma entre v\u00e1rias entrevistadas), fica aqui para registro e caso algu\u00e9m queira saber \ud83d\ude42<\/p>\n<p>(se sair alguma parte dela na revista eu coloco o link aqui depois)<\/p>\n<p>**<br \/>\n<strong>Voc\u00ea escreveu no seu blog algumas vezes que n\u00e3o tinha o sonho de ser m\u00e3e, mas ama a experi\u00eancia, hoje, de ver o filho crescer e descobrir coisas. Como \u00e9 essa descoberta? Como foi essa mudan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Nunca tive sonho de engravidar e ser m\u00e3e, n\u00e3o fazia parte das minhas metas, desejos. Mas aos 36 anos mais ou menos (meu marido, 34) come\u00e7amos a conversar sobre o assunto e achamos que apesar de nenhum de n\u00f3s ter esse desejo apaixonado a experi\u00eancia devia ser muito interessante. Brincamos que foi uma &#8220;experi\u00eancia antropol\u00f3gica&#8221;, e \u00e9 mais ou menos isso mesmo. N\u00e3o fomos do tipo que celebra a gravidez e a nova vida, aquela coisa de cinema. Sempre fomos bem pragm\u00e1ticos e encaramos a experi\u00eancia como uma jornada, uma novidade, sabendo que muda tudo na vida e \u00e9 um outro caminho. Depois do nascimento do Otto as descobertas foram di\u00e1rias, \u00e0s vezes muito incr\u00edveis de t\u00e3o legal e \u00e0s vezes muito chatas e desagrad\u00e1veis. Como n\u00e3o romantizamos a experi\u00eancia, acho que pudemos viver tudo &#8212; a parte linda e a parte muito chata de ser pai e m\u00e3e.<\/p>\n<p><strong>Como foi sua gesta\u00e7\u00e3o? Nessa fase, quais foram as \u201csurpresas\u201d, coisas que voc\u00ea n\u00e3o esperava e acabou tendo de se adaptar?<\/strong><\/p>\n<p>A gesta\u00e7\u00e3o foi tranquila, engravidamos poucos meses depois de decidir que \u00edamos ter filhos. N\u00e3o posso reclamar de quase nada da gravidez em si, porque tive poucos inc\u00f4modos (azia o per\u00edodo todo, enjoo no come\u00e7o, e o final \u00e9 inevitavelmente dif\u00edcil fisicamente, pelo volume). S\u00f3 uma lembran\u00e7a de inc\u00f4modo \u00e9 bem forte: fiquei com nojo de alho, ent\u00e3o comer fora era dif\u00edcil e chegar perto de gente que tinha comido alho acabava com meu dia! Felizmente passou. Fora isso foi vida completamente normal, trabalhando e fazendo tudo que sempre fiz.<\/p>\n<p><strong>O mundo da maternidade tem v\u00e1rias \u201cregras\u201d, que j\u00e1 viraram \u00e0s vezes at\u00e9 piada. No seu blog, por exemplo, voc\u00ea sempre fala de #paidecesarea. Como voc\u00ea v\u00ea essa hist\u00f3ria da escolha do parto? Como lidou com isso?<\/strong><\/p>\n<p>Eu j\u00e1 tinha lido e acompanhado muito sobre parto humanizado bem antes da ideia de ter filhos, e na minha fam\u00edlia quase todas as mulheres fizeram parto normal de v\u00e1rios filhos (apesar de n\u00e3o serem nada humanizados, ao contr\u00e1rio). Pra mim era claro que queria um parto humanizado sem interven\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria (no meu corpo ou no corpo do beb\u00ea), de prefer\u00eancia, como \u00e9 a recomenda\u00e7\u00e3o da OMS. Tendo engravidado com 37 anos, minha gravidez automaticamente era considerada de risco, o que complicava a op\u00e7\u00e3o de parto em casas de parto (muito recomendada por v\u00e1rias pessoas) e eu n\u00e3o queria fazer parto em casa tamb\u00e9m. Fiz acompanhamento inicial na <a href=\"http:\/\/casamoara.com.br\/\" target=\"_blank\">casa Moara<\/a> (muito boa, recomendo), mas eles n\u00e3o atendem no interior, onde moro. Achei ent\u00e3o uma obstetra na regi\u00e3o alinhada com meu plano de parto (uma dificuldade enorme, a prop\u00f3sito), visitei hospital, falei com pediatra chefe, fizemos um plano completo de parto. Ou seja &#8212; nos engajamos muito no processo todo, sabendo das dificuldades de evitar interven\u00e7\u00e3o. Mas no final das contas, acabei fazendo uma ces\u00e1rea emergencial, pois no processo de trabalho de parto houve uma complica\u00e7\u00e3o grave. O Otto nasceu de 41 semanas e 5 dias e ficou 8 dias na UTI em observa\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as ao parto complicado, mas eu fiquei muito bem e ele tamb\u00e9m. Saiu tudo diferente do que eu planejei, mas estou certa que o processo que adotamos foi o melhor poss\u00edvel, e isso \u00e9 que \u00e9 importante: ser protagonista da gesta\u00e7\u00e3o, do parto, e ser acolhida pelos profissionais que est\u00e3o dando o apoio (ao contr\u00e1rio de ser coagida, por medo).<\/p>\n<p><strong>Depois do nascimento do Otto, como ficou sua rotina? Havia algo que voc\u00ea imaginava e que foi totalmente diferente?<\/strong><\/p>\n<p>A rotina mudou completamente, a vida virou outra. Fiquei de licen\u00e7a por 7 meses, ent\u00e3o tive muito tempo de tentar me adaptar (e n\u00e3o adiantou nada, porque quando estava entendendo o que estava acontecendo, mudei a rotina!). Eu n\u00e3o tinha ideia de como seria, s\u00f3 sabia que seria diferente e cansativo. O Otto mamava muito (amamentei em livre demanda), mais ou menos de 2 em 2h, e demorava 40min para mamar, o que torna o processo muito desgastante fisicamente. O Fernando (meu marido) foi um suporte essencial, pois ele fazia tudo que n\u00e3o fosse dar de mamar, e nossa funcion\u00e1ria e nossa fam\u00edlia ajudaram muito tamb\u00e9m. Sem ajuda \u00e9 uma tarefa imposs\u00edvel. Jamais esquecerei o ditado africano que diz &#8220;\u00e9 preciso uma aldeia para criar uma crian\u00e7a&#8221;, porque \u00e9 100% verdade. Ajuda \u00e9 fundamental &#8212; mas precisa ser ajuda de verdade, e n\u00e3o palpite e julgamento. \u00c9 preciso de espa\u00e7o e tranquilidade para errar e acertar, e conhecer aquele ser humano que acaba de chegar e muda toda a din\u00e2mica da fam\u00edlia, da casa, do relacionamento. Eu n\u00e3o tinha ideia de que ficaria sem dormir (ou dormindo picadinho) por tanto tempo, pra ser honesta. As pessoas nunca dizem a verdade pra gente, e repetem que &#8220;o amor incondicional compensa tudo&#8221;. N\u00e3o me senti assim, e apesar de toda a alegria que traz a chegada de um filho, h\u00e1 tamb\u00e9m o medo e o cansa\u00e7o, que s\u00e3o muito grandes.<\/p>\n<p><strong>Como foi lidar com quest\u00f5es cheias de expectativas, como rotina de sono e amamenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A amamenta\u00e7\u00e3o foi muito tranquila, desde que o Otto come\u00e7ou a mamar (ainda na UTI). O in\u00edcio, quando ele estava com soro ou recebendo meu leite por caninho, e eu tinha que ordenhar, foi MUITO dif\u00edcil, assim com letras mai\u00fasculas mesmo. O processo de ordenha \u00e9 muito mais dif\u00edcil que amamentar, mas felizmente eu tive um apoio maravilhoso das enfermeiras no hospital, foi essencial para o processo e para a minha sanidade mental. Estar com filho na UTI, rec\u00e9m-parida (com dor, por causa da ces\u00e1rea) e ainda ter dor e dificuldade para ordenhar \u00e9 um horror. Mas quando ele veio para o peito (5 dias depois do parto, somente) foi muito tranquilo, ele mamou bem e de forma simples, e foi assim at\u00e9 parar de mamar por conta pr\u00f3pria aos 9 meses. Ent\u00e3o fora a dor na lombar (tenho uma h\u00e9rnia) que voltou nos meses da amamenta\u00e7\u00e3o e o cansa\u00e7o da frequ\u00eancia, amamentar foi tranquilo. J\u00e1 o sono foi infernal, eu sempre adorei dormir muito, e me senti um zumbi por v\u00e1rios meses. Fiquei sem dormir uma noite completa (6h seguidas) at\u00e9 perto do menino\u00a0completar 2 anos, quando decidimos (tarde demais, na minha opini\u00e3o) fazer cama compartilhada. Depois que ele veio dormir na nossa cama, nossa vida mudou: melhorou MUITO, pois j\u00e1 n\u00e3o acord\u00e1vamos mais durante a madrugada para faz\u00ea-lo voltar a dormir. Deix\u00e1-lo chorando sozinho nunca foi uma op\u00e7\u00e3o pra n\u00f3s, ent\u00e3o o processo todo foi muito desgastante. Se tivesse nos ocorrido que dormir junto seria t\u00e3o simples, teria mantido assim ao inv\u00e9s de coloc\u00e1-lo no ber\u00e7o no seu quarto aos 5 meses, como fizemos.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea conta tamb\u00e9m da expectativa de o filho ser parecido com voc\u00ea, e que, diferentemente, ele \u00e9 introvertido. Como voc\u00ea lida com isso?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis e mais bonitas da maternidade, na minha opini\u00e3o. O Otto \u00e9 completamente diferente de mim, em personalidade, e mais parecido com o pai. Mas o pai \u00e9 adulto, e j\u00e1 aprendeu a &#8220;navegar&#8221; no mundo dos extrovertidos. Pra mim \u00e9 um mundo novo, complexo, misterioso, e com o qual\u00a0n\u00e3o me sinto 100% \u00e0 vontade, sempre fica a paranoia de que o menino &#8220;tem problema&#8221; porque n\u00e3o \u00e9 extrovertido e super soci\u00e1vel. Por mais que a pediatra afirme que ele \u00e9 \u00f3timo, e v\u00e1rias pessoas confirmem que isso \u00e9 s\u00f3 personalidade, eu n\u00e3o consigo entender, ent\u00e3o fico tensa. Mas est\u00e1 melhorando, conforme eu leio, converso com amigos introvertidos e (o mais importante) presto aten\u00e7\u00e3o aos meus preconceitos. \u00c9 isso que tenho feito: me educado, e aprendido a conviver com a diferen\u00e7a (o que me faz muito bem na vida de forma geral, n\u00e3o s\u00f3 como m\u00e3e). Mas nunca tive grandes expectativas concretas sobre meu filho, at\u00e9 porque nem pensava em t\u00ea-lo. Sou muito flex\u00edvel e gosto de improvisar, seja pra mim mesma ou pra fam\u00edlia, ent\u00e3o n\u00e3o fico fazendo planos ou pensando no que ele vai fazer, o que vai estudar, essas coisas. Eu quero mesmo \u00e9 que ele seja saud\u00e1vel, feliz, seguro, e isso ele j\u00e1 \u00e9 desde muito pequeno. Apesar de introvertido, ele \u00e9 muito assertivo, objetivo, se expressa bem, sabe o que quer, sabe dizer n\u00e3o (coisa que eu aprendi aos 30!). N\u00e3o podia querer nada al\u00e9m disso.<\/p>\n<p><strong>Hoje, com ele maior, como \u00e9 a rotina de voc\u00eas? Como os cuidados com ele se encaixam em seu dia a dia (viagens, trabalho etc.)?<\/strong><\/p>\n<p>Minha rotina \u00e9 bem estruturada, mas n\u00e3o \u00e9 exatamente r\u00edgida (ou seja, a gente adapta quando precisa). Eu trabalho fora o dia todo, sou gerente de TI de uma multinacional para a Am\u00e9rica do Sul, o trabalho me exige muito. Mas j\u00e1 na gravidez decidi que seria mais regrada com minha dedica\u00e7\u00e3o ao trabalho, e procuro fazer poucas horas adicionais, sempre dou muito foco em ser produtiva ao m\u00e1ximo no hor\u00e1rio de trabalho, e desligar quando vou pra casa &#8212; \u00e9 assim que tenho feito, e funciona muito bem. Nossa fam\u00edlia foi organizada de um jeito muito moderno, e diferente da maioria que conhe\u00e7o &#8212; eu trabalho das &#8220;8 \u00e0s 17h&#8221; e meu marido \u00e9 freelancer, desde antes do Otto nascer. Ent\u00e3o \u00e9 ele que cuida de coisas da casa, supermercado, que leva e traz o Otto para a escola, que resolve todas essas coisas do dia a dia, que cuida dele quando eu viajo a trabalho (raro, mas acontece). Temos ajuda de uma super funcion\u00e1ria (segunda a sexta), que cuida da casa e ajuda com o Otto quando o pai n\u00e3o est\u00e1. Eu chego \u00e0 noite e s\u00f3 brinco e cuido do Otto, junto com ele. No fim de semana, passeamos, fazemos coisas juntos, nada muito planejado &#8212; fazemos o que temos vontade. N\u00e3o gosto de criar &#8220;calend\u00e1rio&#8221; para a crian\u00e7a, j\u00e1 basta a nossa vida de adulto cheia de compromissos. Ent\u00e3o, temos nossa rotina do dia a dia bem fixa (hor\u00e1rio de escola, almo\u00e7o, lanche, jantar, dormir), mas estamos sempre dispostos a improvisar e nos fins de semana fazemos o que der vontade. Quanto \u00e0s viagens, \u00e9 uma das atividades que mais amamos, desde que casamos, e o Otto foi incluso nessa rotina a partir de 1 ano. Viajamos todos os anos, para diversos lugares diferentes, outros pa\u00edses ou aqui mesmo, sem muito planejamento, improvisando no caminho. A experi\u00eancia \u00e9 diferente com uma crian\u00e7a (quanto menor, mais dif\u00edcil), mas \u00e9 tamb\u00e9m muito bonita &#8212; ver o mundo atrav\u00e9s dos olhos da crian\u00e7a (al\u00e9m dos seus) \u00e9 m\u00e1gico, e muito interessante. D\u00e1 trabalho? D\u00e1, mas vale a pena.<\/p>\n<p>Uma coisa que vale para todas as perguntas que voc\u00ea me fez, vale em especial aqui: para ser feliz na experi\u00eancia de ser m\u00e3e e pai \u00e9 preciso parar de perseguir a perfei\u00e7\u00e3o, o &#8220;certo&#8221;, e ver alegria e beleza na surpresa, na diferen\u00e7a e at\u00e9 na dificuldade (mesmo que seja olhando depois). Criar uma crian\u00e7a \u00e9 reviver nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria, e muitas vezes fazer as pazes com o passado. Caso voc\u00ea insista em condenar o passado, e for muito perfeccionista, o sofrimento \u00e9 inevit\u00e1vel. Eu escolhi ser feliz \ud83d\ude42<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>uma amiga me indicou para ser entrevistada sobre a experi\u00eancia de ser m\u00e3e, e como n\u00e3o sei se a entrevista vai mesmo ser publicada (sou uma entre v\u00e1rias entrevistadas), fica aqui para registro e caso algu\u00e9m queira saber \ud83d\ude42 (se sair alguma parte dela na revista eu coloco o link aqui depois) ** Voc\u00ea escreveu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[192,193,203],"class_list":["post-445","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-maternidade","tag-entrevista","tag-historia","tag-maternidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=445"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/445\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}