{"id":460,"date":"2015-02-09T15:05:19","date_gmt":"2015-02-09T18:05:19","guid":{"rendered":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/?p=460"},"modified":"2015-02-09T16:08:05","modified_gmt":"2015-02-09T19:08:05","slug":"mudar-e-preciso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2015\/02\/mudar-e-preciso.html","title":{"rendered":"mudar \u00e9 preciso"},"content":{"rendered":"<p>e n\u00e3o temos (muito) medo de mudar. ent\u00e3o l\u00e1 vem outra&#8230;<\/p>\n<p><strong>mas antes, um pouco de contexto<\/strong>: pra quem me acompanha desde o come\u00e7o, sabe que a escolha da escola do Otto foi um processo &#8212; a gente pesquisou, pensou, avaliou, e acabamos decidindo pela pedagogia <a href=\"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/tag\/waldorf\" target=\"_blank\">Waldorf<\/a>. os principais motivos foram (1) alimenta\u00e7\u00e3o org\u00e2nica \/ natural (n\u00e3o servem nada industrializado nem com a\u00e7\u00facar, os lanches s\u00e3o todos fruta,\u00a0castanha ou cereal); (2) contato com a natureza (quintal grande, atividades direto na terra e com plantas); (3) acolhimento da crian\u00e7a sem o ambiente &#8220;escolar&#8221;, o\u00a0grande foco \u00e9 no brincar &#8212;\u00a0n\u00e3o existe AULA, mas atividades l\u00fadicas direcionadas, procurando imitar o ambiente familiar com a professora fazendo as vezes de &#8220;m\u00e3e&#8221; arquet\u00edpica.<\/p>\n<p>nos encantamos tanto com a pedagogia que nos dispusemos, junto com outras 7 fam\u00edlias, a criar uma associa\u00e7\u00e3o Waldorf para nossas crian\u00e7as, gerenciada por n\u00f3s, o Espa\u00e7o Livre EcoAra. a gest\u00e3o associativa, com total participa\u00e7\u00e3o dos pais e professores, \u00e9 a base da pedagogia, e\u00a0\u00e9 uma experi\u00eancia muito profunda. participar de forma ativa da cria\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o do espa\u00e7o no qual nossos filhos vivenciam os primeiros anos escolares \u00e9 transformador. desde a valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho que exige a cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de uma escola at\u00e9 o senso de pertencimento e envolvimento, toda a\u00a0viv\u00eancia nos torna pessoas mais atentas, melhores, mais dedicadas. al\u00e9m disso tudo, ainda \u00e9 poss\u00edvel conhecer pessoas do bem\u00a0&#8212;\u00a0mesmo com os in\u00fameros conflitos que s\u00e3o inevit\u00e1veis ao conv\u00edvio em grupo, a gente percebe que ningu\u00e9m erra por maldade, mas porque fazer coisas em grupo \u00e9 complexo, e o ser humano \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p>foram 2 anos muito importantes pra n\u00f3s, e estou certa que foram tamb\u00e9m pro Otto. sempre\u00a0achamos\u00a0que a pedagogia Waldorf seria muito boa pra ele at\u00e9 os 6 ou 7 anos, quando ainda n\u00e3o iniciam as atividades de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p>ainda assim <strong>decidimos abandonar a pedagogia Waldorf<\/strong> para o Otto antes de completados os 7 anos. continuamos volunt\u00e1rios da associa\u00e7\u00e3o, do Espa\u00e7o EcoAra, e faremos tudo que for poss\u00edvel para que eles se mantenham e continuem esse projeto t\u00e3o bonito.<\/p>\n<p>o nosso motivo \u00e9 basicamente um: quanto mais tivemos contato com a <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Antroposofia\" target=\"_blank\">antroposofia<\/a>, menos gostamos dela. fiz v\u00e1rias tentativas de ler textos, &#8220;artigos&#8221; e tamb\u00e9m alguns livros, e a cada tentativa minha frustra\u00e7\u00e3o e inc\u00f4modo se intensificavam. esta filosofia se diz cient\u00edfica, e tem um discurso pseudo cient\u00edfico que chega a enganar quem quer ser enganado, mas para quem realmente gosta de ci\u00eancia e entende o m\u00e9todo cient\u00edfico, n\u00e3o d\u00e1.\u00a0eles acreditam em karma, alma, reencarna\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de jesus como filho de deus, santos, anjos\u00a0e mais uma lista enorme de coisas absolutamente fict\u00edcias (desculpa, pessoal crente. \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que seja provado). \u00e9 uma mistura sem fim de dogmas e cren\u00e7as, por\u00e9m muito disfar\u00e7ados de ci\u00eancia, o que me incomodou ainda mais.<\/p>\n<p>steiner \u00e9 arcaico. pode ter sido uma figura importante e brilhante no seu tempo, mas ficou ultrapassado em v\u00e1rios sentidos, e n\u00e3o vejo na filosofia uma abertura \u00e0 diversidade real, ao debate, o incentivo ao pensamento cient\u00edfico. as diretrizes da pedagogia, por exemplo, s\u00e3o extremamente r\u00edgidas e o espa\u00e7o para o debate n\u00e3o existe. os princ\u00edpios da pedagogia Waldorf t\u00eam 1 s\u00e9culo e jamais foram revistos, atualizados, modernizados \u00e0 luz de tantas vertentes pedag\u00f3gicas novas &#8212; como pode? Steiner podia ser um homem inteligente, mas a humanidade continuou a evoluir, e a pedagogia est\u00e1 parada no tempo, cristalizada, obedecendo aos princ\u00edpios que ele postulou.<\/p>\n<p>n\u00e3o nos sentimos inclu\u00eddos, nossas d\u00favidas\u00a0(colocadas para v\u00e1rias pessoas &#8220;seguidoras&#8221; da antroposofia) jamais foram acolhidas, muito pelo contr\u00e1rio &#8212; nos sentimos mal por questionar, e isso nunca \u00e9 bom para pessoas como n\u00f3s, que acreditam que perguntas e questionamentos s\u00e3o a base da evolu\u00e7\u00e3o, da ci\u00eancia, do desenvolvimento. como submeter nosso filho a uma pedagogia que se baseia em princ\u00edpios\u00a0que sabemos ser fict\u00edcios? qual ser\u00e1 o espa\u00e7o que ele ter\u00e1, depois dos 7 primeiros anos de brincar, para questionar e discordar?<\/p>\n<p>tenho certeza que algu\u00e9m do meio antropos\u00f3fico vai dizer que nossa experi\u00eancia n\u00e3o representa o todo, que a antroposofia \u00e9 baseada na liberdade do indiv\u00edduo, mas n\u00e3o se engane: n\u00e3o \u00e9.\u00a0o indiv\u00edduo que refuta a exist\u00eancia de deus e do esp\u00edrito n\u00e3o tem espa\u00e7o na antroposofia. conclu\u00edmos, com certo pesar, que a antroposofia, a pedagogia Waldorf e todos os que de alguma forma entraram em conflito conosco a esse respeito n\u00e3o estavam errados &#8212; eles est\u00e3o alinhados entre si, e coerentes. n\u00f3s \u00e9 que precis\u00e1vamos mudar (ou aceitamos, ou sa\u00edmos), e a decis\u00e3o foi tomada. talvez existam educadores brilhantes o suficiente na pedagogia Waldorf que tenham condi\u00e7\u00f5es de lidar com a diversidade de pensamento, e a clareza de admitir que\u00a0a antroposofia \u00e9 mais uma vertente espiritual, sem impor isso a seus alunos de forma indireta e subliminar (o que pra mim \u00e9 pior do que uma escola declaradamente cat\u00f3lica, por exemplo, ou judia). mas n\u00e3o vou confiar a educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica* do meu filho a professores que (frequentemente) s\u00e3o\u00a0parte da fic\u00e7\u00e3o espiritual de forma t\u00e3o engajada.<\/p>\n<p><em>(*) uma pausa para esse assunto: n\u00e3o temos nada contra cren\u00e7as individuais (tudo contra religi\u00e3o. mas esse \u00e9 assunto pra outro post) e f\u00e9 seja no que for. mas estamos convictos que f\u00e9 e cren\u00e7a devem ser ensinadas SOMENTE dentro do contexto familiar. \u00e0 escola cabe o ensino das normas, do conv\u00edvio, dos princ\u00edpios da vida em sociedade, da ci\u00eancia. n\u00e3o quero nenhum professor\u00a0repassando ao meu filho suas cren\u00e7as em seres imagin\u00e1rios, em especial quando isso \u00e9 feito de forma indireta e muito frequentemente inconsciente.<\/em><\/p>\n<p>mas voltando: depois da exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s cren\u00e7as antropos\u00f3ficas \/ Waldorf, n\u00e3o ficamos\u00a0felizes com\u00a0as possibilidades do ensino neste m\u00e9todo a partir dos 7 anos. at\u00e9 os 6 anos seria tudo \u00f3timo, pois eles basicamente brincam e interagem entre si atrav\u00e9s das atividades dirigidas de artes, m\u00fasica, brincadeiras. poder\u00edamos deix\u00e1-lo na Waldorf at\u00e9 os 6 anos pelo menos, mas a\u00ed entra uma caracter\u00edstica do Otto: ele \u00e9 um menino introvertido, que demora muito a se familiarizar com as pessoas e ambientes. ap\u00f3s 4 anos na Waldorf com a mesma turma, ele seria transicionado para uma escola comum, no sistema de ensino tradicional (o que por si j\u00e1 seria um choque) e al\u00e9m de tudo come\u00e7ando a alfabetiza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a importante.<\/p>\n<p>para evitar um choque t\u00e3o abrupto, decidimos mud\u00e1-lo de escola neste ano, e deix\u00e1-lo se adaptar ainda no jardim, antes de iniciar a alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p>bom, n\u00e3o foi f\u00e1cil a decis\u00e3o. <strong>o sistema tradicional de ensino exige da crian\u00e7a uma maturidade que ela nem sempre tem<\/strong>, e isso \u00e9 do\u00eddo. o otto por exemplo tem\u00a0interesse pelas letras e n\u00fameros, formas geom\u00e9tricas, j\u00e1 sabia desde 2 anos, ent\u00e3o essa parte n\u00e3o nos preocupa. mas ele n\u00e3o \u00e9 uma crian\u00e7a independente e extrovertida &#8212; n\u00e3o se veste sozinho, nem escova os dentes (direito, n\u00e9. de qualquer jeito ele faz), lava as m\u00e3os, cuida das pr\u00f3prias coisas. muito dessa depend\u00eancia \u00e9 culpa nossa, claro, porque temos pregui\u00e7a de deixar ele fazer (demora; tem que refazer) e fazemos por ele. agora ele est\u00e1 sendo pressionado a ter uma independ\u00eancia que n\u00e3o tem ainda, e confesso que tem sido dif\u00edcil pra mim (talvez mais que pra ele).<\/p>\n<p>ele agora vai para uma escola de curriculum internacional, em ingl\u00eas, das 7:20 \u00e0s 15:15h. almo\u00e7a e toma lanche na escola, convive com crian\u00e7as de v\u00e1rias nacionalidades, tudo em ingl\u00eas e portugu\u00eas. h\u00e1 alguns meses ele come\u00e7ou a se interessar muito pelo ingl\u00eas por causa do desenho dora aventureira, ent\u00e3o quando decidimos por esta escola ele ficou super feliz.<\/p>\n<p>ele come\u00e7ou h\u00e1 1 semana, e n\u00e3o precisamos busc\u00e1-lo mais cedo nenhum dia (ou seja, ficou sem chorar e sem reclamar muito), est\u00e1 comendo bem e quando perguntamos sobre a escola ele diz que est\u00e1 gostando. tem chegado feliz, dorme bem, est\u00e1 no geral \u00f3timo, o que nos surpreendeu muito, pra ser sincera. achamos que a mudan\u00e7a seria sentida, que choraria, reclamaria, e ele est\u00e1 lidando muito melhor do que n\u00f3s \ud83d\ude42<\/p>\n<p>fizemos nossa 1a reuni\u00e3o com as professoras no final da 1a semana, e elas disseram que ele est\u00e1 bem, n\u00e3o estranhou, mas notaram a falta de independ\u00eancia dele comparado \u00e0s outras crian\u00e7as. a culpa \u00e9 toda nossa, e agora precisamos ajud\u00e1-lo a ser mais independente para se adaptar melhor. aparentemente ser tudo em ingl\u00eas n\u00e3o incomodou ele de forma alguma &#8212; n\u00e3o reclamou, e uma das professoras comentou que ele &#8220;fala ingl\u00eas&#8221; (rimos muito; ele se vira bem, aparentemente). vamos ver como segue. na 1a segunda-feira depois da 1a semana de aula ele chorou quando percebeu que ia pra escola &#8212; queria ficar mais em casa (eu tamb\u00e9m. n\u00f3s todos tamb\u00e9m. como dar essa not\u00edcia pra ele?)<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p>assim como foi no come\u00e7o, quando ele foi \u00e0 escola pela 1a vez, percebo\u00a0o quanto <strong>a tarefa de fabricar humanos \u00e9 dif\u00edcil e muitas vezes dolorida<\/strong> &#8212; todas as feridas, esquecidas h\u00e1 tanto tempo, abrem e voltam com for\u00e7a total. nestes dias de ansiedade e apreens\u00e3o por ele, sinto falta da minha m\u00e3e.\u00a0revivo mem\u00f3rias constru\u00eddas (sempre amei a escola, mas como ser\u00e1 que era levantar de manh\u00e3 e sair de casa? nunca foi f\u00e1cil na vida adulta, deve ter sido dif\u00edcil quanto pequena tamb\u00e9m), tento ser pra ele uma m\u00e3e t\u00e3o presente e carinhosa nessa hora da partida do ninho quanto minha m\u00e3e o foi (ser acordada pela minha m\u00e3e e tomar caf\u00e9 da manh\u00e3 \u00e9 das lembran\u00e7as mais lindas que tenho da inf\u00e2ncia). eu o acordo com todo carinho, visto sua roupa (ainda n\u00e3o consigo deix\u00e1-lo vestir, porque teria que acordar MUITO mais cedo), sento para tomar caf\u00e9 da manh\u00e3 junto. na volta, pergunto da escola, e tento mostrar que \u00e9 um lugar (e uma experi\u00eancia) super legal. ele nunca fala muito, mas diz que gosta, e eu tento acreditar.<\/p>\n<p>anseio pelo dia em que ele fa\u00e7a amigos, e se interesse tamb\u00e9m pelo mundo dos outros, n\u00e3o somente o nosso, da nossa casa e nossa fam\u00edlia. quero que ele navegue, tenha coragem, e sinta felicidade tamb\u00e9m em\u00a0partir, n\u00e3o s\u00f3 em\u00a0retornar.<\/p>\n<p>enquanto isso, meu cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e cabe num dedal.<\/p>\n<p>&lt;\/3<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>e n\u00e3o temos (muito) medo de mudar. ent\u00e3o l\u00e1 vem outra&#8230; 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