{"id":703,"date":"2017-05-18T11:51:38","date_gmt":"2017-05-18T14:51:38","guid":{"rendered":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/?p=703"},"modified":"2017-05-18T11:51:38","modified_gmt":"2017-05-18T14:51:38","slug":"feliz-dia-das-maes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zel.com.br\/fabricando\/2017\/05\/feliz-dia-das-maes.html","title":{"rendered":"Feliz dia das m\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p>Antes de ter filho eu j\u00e1 percebi que minha m\u00e3e mora em mim. N\u00e3o exatamente ela, a minha Mami Vera Lu, que \u00e9 uma pessoa maravilhosa, admir\u00e1vel e que amo muito, mas a m\u00e3e que eu constru\u00ed quando crian\u00e7a. Aos poucos, conforme eu crescia, fui percebendo que a minha m\u00e3e que morava do lado de dentro n\u00e3o era a mesma que morava do lado de fora. \u00c9 isso \u00e9 bom, porque me deu a oportunidade de perdoar os erros da minha m\u00e3e humana, e admirar ainda mais os acertos. Quando a gente endeusa as pessoas, minimiza muito as qualidades (\u00e9 assim que \u00eddolos devem ser, certo?) e n\u00e3o se conforma com os erros (\u00eddolos n\u00e3o t\u00eam direito de errar).<br \/>\nMas \u00e9 legal ter a m\u00e3e da gente morando aqui dentro. Ela fala comigo, me conforta e d\u00e1 bronca. \u00c0s vezes ela me domina e me vejo gritando pro Otto coisas como &#8212; &#8220;SE EU TIVER QUE IR AT\u00c9 A\u00cd&#8230;&#8221; \ud83d\ude42 Minha m\u00e3e nunca vai me abandonar enquanto eu viver. E uma parte dela viver\u00e1 com o Otto tamb\u00e9m, atrav\u00e9s de mim.<br \/>\n(E sei que isso \u00e9 poss\u00edvel porque eu pude conviver com a minha m\u00e3e, e internaliz\u00e1-la. Abra\u00e7o todos e todas que n\u00e3o tiveram essa oportunidade por perderem as m\u00e3es muito cedo. &#x1f494;)<br \/>\nAbra\u00e7o tamb\u00e9m os que t\u00eam m\u00e3es t\u00f3xicas. Essas m\u00e3es que (provavelmente sem querer &#8212; n\u00e3o consigo conceber uma m\u00e3e s\u00e3 magoando seus filhos de prop\u00f3sito) massacram seus filhos, que n\u00e3o aceitam deles nada menos que tudo. Que n\u00e3o acolhem o erro, o desvio da meta, o diferente. Que cobram o imposs\u00edvel, que n\u00e3o enxergam que o filho que ela sonhou n\u00e3o existe; que aquele filho que ali est\u00e1 \u00e9 perfeito como \u00e9.<br \/>\nA m\u00e3e carrasca mora na gente tamb\u00e9m, e sopra julgamentos quando comemos um bombom a mais, quando dormimos sem tomar banho, quando as coisas d\u00e3o errado.<br \/>\n&#8220;Eu avisei.&#8221;<br \/>\n&#8220;Eu sempre soube.&#8221;<br \/>\nEm 2010 me tornei m\u00e3e, e sabia que seria dif\u00edcil &#8212; a maternidade idealizada nunca existiu pra mim. S\u00f3 n\u00e3o sabia que seria T\u00c3O dif\u00edcil. De tudo que \u00e9 dif\u00edcil, a parte f\u00e1cil \u00e9 que d\u00e1 trabalho: cuidar, limpar, ficar sem dormir. A parte imposs\u00edvel \u00e9 lidar com um amor feroz, muito movido pelo medo, o pavor de ser respons\u00e1vel por algu\u00e9m. Pavor de sentir um amor t\u00e3o grande que parece que vai explodir pelos poros todos, que faz a gente sentir o cora\u00e7\u00e3o ocupar o t\u00f3rax todo, um amor que transforma a pr\u00f3pria morte em apenas um inconveniente que vai afetar aquele ser, o filho.<br \/>\nEu tinha medo de morrer. Morrer n\u00e3o \u00e9 legal, a gente evita e tal. Mas quando temos um filho, a ideia inconceb\u00edvel e que sequer se pode nomear de perd\u00ea-lo para a morte transforma a nossa pr\u00f3pria morte em uma op\u00e7\u00e3o excelente. Por favor que eu morra antes, muito antes, se necess\u00e1rio. Minha \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o com minha morte desde que me tornei m\u00e3e \u00e9 &#8220;ele vai sofrer&#8221;.<br \/>\nEu morreria 10 mortes por ele, sem hesitar.<br \/>\n(Mas n\u00e3o me pe\u00e7a pra tirar uma taturana de perto dele, esse teste j\u00e1 aconteceu e eu falhei miseravelmente. Sa\u00ed correndo.)<br \/>\nQuando ele nasceu, eu nasci tamb\u00e9m. Minha por\u00e7\u00e3o m\u00e3e nasceu (j\u00e1 dizendo &#8220;SE EU TIVER QUE IR A\u00cd&#8230;&#8221;), e a cada ano que passa admiro mais meus pais. Que tarefa herc\u00falea \u00e9 criar humanos estando presente. Porque humanos sobrevivem muito bem em ambientes hostis, somos muito resistentes. Mas criar humanos com amor pra serem seres humanos do bem \u00e9 muito dif\u00edcil.<br \/>\nNosso corpo transmite a carga gen\u00e9tica automaticamente para nossos filhos, e essa \u00e9 a parte f\u00e1cil. Humanos, diferentes dos animais, precisam de uma outra &#8220;carga&#8221;, que toma anos de investimento &#8212; somos n\u00f3s, pais, educadores, fam\u00edlia, amigos, a sociedade, que fazemos essa carga. Ensinamos e moldamos, a maior parte do tempo sem querer.<br \/>\nEu gasto a maior parte do tempo com meu filho fazendo cargas de afeto, conhecimento, ensinando o que \u00e9 ser humano dentro do meu sistema. Ele \u00e9 resultado da minha carga gen\u00e9tica e tamb\u00e9m da minha carga afetiva e intelectual. Esse processo \u00e9 intensivo, e a cada ano que passa se torna mais dif\u00edcil, mais complexo.<br \/>\n(E \u00e9 tamb\u00e9m por isso que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio engravidar pra ser m\u00e3e. A maior parte da constru\u00e7\u00e3o da maternidade se d\u00e1 no fazer. E se intensifica quando a crian\u00e7a cresce)<br \/>\nSomos como uma grande casa, cheia de c\u00f4modos escondidos. Ser m\u00e3e abriu c\u00f4modos que nem sabia que existia, cheios de p\u00f3 e coisas misteriosas. Criar o Otto trouxe luz por novas janelas, e me obrigou a arrumar e limpar tralha que eu nem sabia que tinha.<br \/>\nEle continua crescendo dentro de mim, iluminando cantos escuros. E tenho certeza que dentro dele h\u00e1 uma parte de mim, como um DNA alien\u00edgena, que vai ajudar e atrapalhar, carrega qualidades e defeitos. Ele vai me levar onde for.<br \/>\nSer m\u00e3e \u00e9 a experi\u00eancia de autoconhecimento mais incr\u00edvel e assustadora que jamais sonhei viver.<br \/>\nAlgu\u00e9m me disse uma vez, quando nem queria ter filhos, que ser m\u00e3e me faria bem pois me faria ver o mundo de outro ponto de vista. Achei meio \u00f3bvio, claro que a maternidade d\u00e1 outro ponto de vista, mas hoje entendo o recado: o mundo n\u00e3o gira ao meu redor. E nada d\u00e1 essa dimens\u00e3o de forma mais radical que ser m\u00e3e.<br \/>\nSer m\u00e3e \u00e9 como aprender que h\u00e1 outros planetas, entender a lei da gravidade e fazer aquele &#8220;zoom out&#8221; comparando a si mesma com o sol. E sair da Via L\u00e1ctea. A gente ri de nervoso, porque \u00e9 tudo t\u00e3o imenso e incompreens\u00edvel que a gente retoma a vida e vai trocar fraldas, porque as pequenas coisas da vida trazem conforto e plantam nossos p\u00e9s no ch\u00e3o.<br \/>\nPara este dia das m\u00e3es, convido voc\u00eas a ler (ou reler, espero) O Del\u00edrio, de Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas.<br \/>\nToda m\u00e3e \u00e9 Pandora.<br \/>\nhttp:\/\/sanderlei.com.br\/PT\/Machado-de-Assis\/Memorias-Postumas-de-Bras-Cubas-007<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de ter filho eu j\u00e1 percebi que minha m\u00e3e mora em mim. 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