fabricando

Um dos deuses mais lindos

August 8, 2020 · Leave a Comment

Sincronicidade, ou sinapses muito loucas: o trecho é roubado da Daniela, e ressoou aqui por outro motivo, mas que é o mesmo, como vocês talvez vejam.

“Como não tive filhos, a coisa mais importante que me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isso me refiro à morte dos meus entes queridos. Talvez você ache isso lúgubre, mórbido. Eu não vejo assim. Muito pelo contrário: para mim é uma coisa tão lógica, tão natural, tão certa. Apenas nos nascimentos e nas mortes é que saímos do tempo. A Terra detém sua rotação e as trivialidades em que desperdiçamos as horas caem no chão feito purpurina. Quando uma criança nasce ou uma pessoa morre, o presente se parte ao meio e nos permite espiar por um instante pela fresta da verdade –monumental, ardente e impassível.”
(Rosa Montero em “A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver”)

Hoje, no almoço:

O: “tirando o círculo, que eu sei que é o que vocês iam dizer, o que não tem começo, meio e nem fim?”

Eu: “o infinito!”

O: “hmmmm não exatamente. São os números. Porque tem todos os menos antes do zero, e os mais depois.”

Eu e Fernando: (eita!) “hmm interessante. É verdade — considerando todos os números, não tem meio mesmo não. Mesmo o zero, é só uma referência, não é o meio, se os positivos e negativos são infinitos cada um pro seu lado…”

(Nossos cérebros explodindo de ideias e o conceito do zero e tantas outras coisas)

O: “isso. Como no mundo do MineCraft, que o ponto zero não é o meio, é só o lugar onde eu cheguei no mundo”

Eu: …

**

Quais são seus pontos zero? A chegada dessa criança tão peculiar definitivamente é um dos meus.

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Poliglota

August 8, 2020 · Leave a Comment

Essa semana Otto declarou, muito espantado (na hora que acorda, sempre… uma animação que me irrita 🤣) — “percebi que a minha voz é diferente quando eu falo inglês. E a sua?!”

A minha voz é BEM diferente quando falo inglês, português ou espanhol. Cada uma tem sua tonalidade, sua cadência. Em inglês minha voz é mais grave que em português, e em espanhol também — não só mais grave mas um pouco mais anasalada.

Achei lindo ele perceber essa sutileza; cada idioma que se incorpora em nós traz a subjetividade do contexto, da idade em que aprendemos, das nossas referências sobre ele.

Tenho dificuldade de memorizar números em inglês, só os números. Quando me sinto à vontade e relaxada numa conversa, frases em português escapam sem querer, é muito louco.

Não existe língua mais fácil, mais difícil, melhor, pior. Idiomas são mais que regras, pronúncia, são expressões culturais e afetivas.

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Apanhado da semana

August 7, 2020 · Leave a Comment

Tenho umas histórias boas pra contar do Otto essa semana… segurem essa marimba.

**

Otto deitado comigo na cama:

O: “mamãe, seu braço parece de homem!”

(Eu: uepa! Forte?!)

Eu: “ah é, por quê?”

O: “porque tem pêlos aqui, ó” — mostra a axila

Eu: fuén. “E por que você acha que ter pêlos na axila é coisa de homem?”

O: “porque eu nunca vejo mulheres com pêlos aí, ué”

Faz sentido. Expliquei que todos os humanos têm pêlos, com diferenças de quantidade, cada um é um.

O: “mais um motivo pra não ser adulto! Não quero ter pêlos, não!”

Eu ia mostrar que ele já tem, deixei pra lá 

**

O: “mamãe, o que é bee’s fight?”

Eu: “pode ser mais de uma coisa, como é a frase toda?”

O: “é o S de plural, e não de pertencimento!”

OWN MODEUSO ❤️

**

Otto perdeu mais um dente, dessa vez começando a cair os que vêm depois dos caninos. Ele ficou todo feliz, colocou debaixo do travesseiro pra Fada do Dente pegar e os pais de cesárea ESQUECERAM DE COLOCAR DINHEIRO E PEGAR O DENTE 

Ele acordou, reclamou comigo, e eu rapidamente inventei que de repente a fada se confundiu, porque afinal ele mudou de país e tals, e que ele podia escrever um bilhete pra ela e esperar mais uma noite.

Pois ele escreveu um bilhete ÓTIMO (depois atualizo com foto; tá lá debaixo do travesseiro) dizendo que ficou bravo e que espera a troca essa noite 😀

Acho que ele ficou meio chateado!

Fico aqui me perguntando quão puto ele vai ficar quando descobrir que é tudo lenda — fada, papai Noel, coelho… não quero nem ver.

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Shalada

August 4, 2020 · Leave a Comment

Um menininho que amava PIABO ❤️

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Há 8 anos, há 10 anos

August 4, 2020 · Leave a Comment

Otto tem a história de fala mais esquisita que eu já vi. A gente tinha uma expectativa enorme dele falar, e ele até 1 ano e 8 meses falava só papá, mamã, ága, e olhe lá.

Eis que no meio de uma viagem bem louca na Escandinávia, esperando um barco, Otto fala — “pé”. Zero bebezês, foi pé mesmo. Estranhamos, perguntamos “o que você disse, Otto?”

Otto, com cara de “nossa que gente burra!” (sério), levanta o pé e diz “PÉ!”.

Gente, ele disse PÉ ❤️

Até aí tudo bem. Só que em 2 semanas depois desse dia ele formava frases completas, com flexões verbais complexas. A pronúncia, as palavras, ainda eram de bebê, mas a construção das frases não era só perfeita, era sofisticada mesmo.

Pouco tempo depois ele começou a contar, e falar as letras todas, e quando entrou na escola Waldorf com 2 anos foi um drama, levamos bronca porque ele era “muito acordado”, segundo a psicóloga.

Belzebu-menino (como chamávamos) ou espírito velho (como diz minha Mami Vera), você escolhe. O que eu sei é que é uma figura, e quando chega o mês de agosto eu lembro das histórias de cada ano.

O menino faz 10 anos, não consigo acreditar.

❤️

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Comida é pasto

August 1, 2020 · Leave a Comment

Um sonho: a auto consciência do Otto em relação ao que come.

Ele jantou a salada de sempre, que ele ama (tomate, cenoura, repolho, brócolis e pepino), estrogonofe com arroz e batata palha. Pediu brigadeiro ENROLADO de sobremesa.

Eu tinha feito brigadeiro de colher, ele queria enrolado. Ok.

“Quantos você quer?” — “quatro!”

Achei muito, mas ok, 4.

2 brigadeiros depois…

“Só vou querer 2 mesmo! É muito doce, afe!”

Invejo, porque não é controle, é consciência de desejo / necessidade. Ainda chego (volto) lá!

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Dad pools

July 28, 2020 · Leave a Comment

Mas pra não dizer que foi só chororô (pelo menos da parte dos pais :D), ontem também teve momento revolta com o Fernando que ousou dar ordens para Herr Otto fazer atividades físicas mínimas, dentro da programação da casa.

Após muito drama, e minha intervenção pra tentar apaziguar os ânimos (usamos a estratégia good cop / bad cop alternadamente), menino declara para o Fer:

— “você é o pior pai que eu já tive!”

藍

Depois de conseguir segurar a risada, perguntei: “e quantos pais você já teve?!”. Ele fez de conta que não ouviu, claro.

Fer, depois de sofrer muito, como um bom pai pisciano, até conseguiu achar graça também.

TENSO.

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Meu caro amigo

July 28, 2020 · Leave a Comment

Essa semana foi a primeira vez que chorei de tristeza, desde que cheguei, desde que começou a pandemia. Chorei junto com o Otto, que disse estar com saudade da nossa casa no Brasil, e da vovó Vera.

Eu também tenho saudade da nossa casa e da minha Mami. Tenho saudade dos amigos, do pão com mortadela e das flores e pássaros por toda parte.

Mas a minha saudade eu administro, lido bem com ela, convivo. Quando nosso filho sofre, ah, gente… que dor. Lembrei dos primeiros meses dele, quando ele chorava sem razão aparente e eu chorava junto, desejando poder trazer ele de volta pra dentro do meu corpo, proteger de tudo, abraçar aquele corpinho todo e fazer passar.

Eu abracei ele pra chorar, e ele melhorou. Eu, nem tanto. Quanto amor cabe fora do nosso corpo? Como amenizar as dores de crescer e entender melhor as coisas?

Explicamos sobre a pandemia, de novo. Ele acha que no Brasil ele estaria melhor que aqui (mal sabe ele), e na verdade só de ter quintal, piscina e vovó ele estaria mesmo. Mas contamos que todos nós estamos passando pelas mesmas coisas, no mundo todo, que está difícil pra todos e que vai passar.

Vai passar.

Enquanto isso a gente chora um dia, ri no outro, e tenta abraçar e ser feliz nos momentos que dá.

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Idiota

July 24, 2020 · Leave a Comment

Julho, 2015

(A Maria Lucia vai gostar dessa)

Graças aos vilões, Otto aprendeu a palavra “idiota”, usada pelo Locki, mas não sabe o que é (tamos tentando ensinar e evitar que ele aplique no dia a dia :D).

Ele hoje quis brincar de escrever no meu computador, no Word, ele adora. Ficou lá, daqui a pouco ele fala: “mamãe, escrevi IDIOTA!”

(Afe! Deixa ver)

Na tela, “IOA”

😉

Achei incrível a suposição dele, sem as consoantes. Como será que se dá sem indução a transformação dos sons em letras? Parece natural que as vogais façam mais sentido que as consoantes, não é?

(Nunca pensei nisso)

Ele evoluiu sozinho pra IDI- (encontrou o D na palavra, super legal), e o resto se perdeu nas distrações que vocês viram depois no vídeo que compartilhei (divertidíssimo).

Quisera lembrar de como foi a descoberta do mundo das palavras escritas. Que mágico (e tão lindamente humano!) é isso <3

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Mentiras categorizadas

July 9, 2020 · Leave a Comment

Dia desses, na aula on-line, uma das professoras trouxe o filho dela pra apresentar pro Otto (ela é brasileira, professora de apoio dele). Nosso LORDE imediatamente informou — “mas eu não quero conhecer ele!”. Fer, é claro, interferiu, explicou, deu um sambarilove, pra situação não ficar horrível. Ela conhece o Otto, então acabou achando graça, mas depois teve DR.

Explicamos pra ele que isso não se diz. Que por educação, quando alguém nos diz que vai apresentar um membro da família, é educado simplesmente cumprimentar e não dizer se queria conhecer ou não 🙄 mesmo que a gente não queira

Ele ficou indignado — “mas se eu não quero conhecer eu PRECISO dizer isso. Vocês não dizem que mentir é errado? Eu não quero mentir!”

Putz. E a complexidade da explicação sobre os limites da mentira social, e da omissão por educação? É uma enorme sutileza, e pra alguém tão direto como ele, é muito difícil entender porque tanta volta, e tantos dedos.

Ele queria simplesmente avisar a outra pessoa que não está interessado, e vida que segue. Mas não dá, porque as relações são feitas de pequenas concessões (às vezes não tão pequenas… eu lutei por muitos anos pra aprender a impor limites), e ele precisa aprender, mesmo não gostando.

Como a gente ensina que mentir é uma coisa ruim mas que ao mesmo tempo é necessário? Mentira e omissão têm graus, essa é a verdade, mas que difícil explicar isso, e ensinar!

Fer e eu lembramos de um experimento que alguém fez, de tentar passar um período de tempo absolutamente sem mentir, e relatou que é horrível, ou melhor, as consequências são horríveis.

De modo que precisamos educar o menino sincerão a mentir.

Vai dar ruim, claro, mas pelo menos teremos histórias interessantes 😀

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